Sobre um tempo que já morreu

(sur un temps qui est mort).

Refúgio

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me desafio, frio
escapo frente ao vazio e me deparo
com meu reflexo
outra vez
transtornado de tanto biopsicosofrer
nos dentes tortos
e feridas infectadas de 50% da população.

lixo, denuncio a mim mesmo
– doente e insuficiente –
homo sapiens político e desinformado com quem
a seleção nacional foi ordinariamente
gentil.

trovador das palavras feias
escritor pós-moderno de calçada de botequim
reflete se faz parte dos 50% doentes de lá
ou de cá.

1988 tristezas modernas me machucam
com rajadas de sangue seco empobrecido
que não mais me afetam fisicamente.

quem tem direito a refúgio? questiono
à magna carta
que sutilmente me permite ignorar a dor
pois se cala.

Written by Ísis Amadeu

14 de junho de 2017 at 20:44

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Da porta na qual você não bate

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O mundo se abre para ser mudado por mim conforme meu corpo se entorpece. Você bateu na minha porta e fez os vizinhos barulhentos vibrarem e voltarem. Tudo de volta… A mesma estrada, sabe? As mesmas esperanças de sucesso contidas no meu ser. Não sei mais o que é essa vida que estava me esperando… Nem aquela música do Engenheiros me explica. Desamor demais pra minha mente. Daí surge a necessidade de te ver. Há poucas pessoas que me satisfazem, como aquela história dos cigarros raros que a gente encontra. Você me desperta sorrisos que fazem meu rosto se abrir inevitavelmente. You’re with me all the time. Você é do tipo de pessoa que eu quero de qualquer forma, desde que esteja ao meu lado, porque quando um cigarro é tão bom dessa forma, só o seu cheiro trazido pelo vento já me faz bem, e eu me controlo para segurar a vontade de traga-lo por completo e me afundar no vício. Mas você mesmo já me fala sempre  sobre o quanto vícios são enganos. Nada em excesso, seja você, cigarros ou bebida. Apesar de eu sempre ter conservado uma atração forte e explicita tanta pela sua alma quanto pelo seu ser reluzente, que se une quase perfeitamente aos meus ideais, sei me alimentar apenas pela luz que as suas palavras me dão, sem me afundar, sem quebrar barreiras e misturar duas tintas que originam uma cor que se apaga tão fácil.

O mundo se abre pra cuidar de mim e de você.

Não sei te convencer. Quero escrever com seu sangue velho nos meus cadernos enquanto tomamos um vinho chileno qualquer.

..

Tanto sua voz quanto seu sotaque grosseiro te trazem de volta ao meu quarto. Se eu pudesse, suas telas estariam inundando minhas paredes. Se eu pudesse, te traria aqui para pintar o apartamento inteiro, inundá-lo com a sua história. Psicanálise se abre como você em mim e como seus cigarros nos meus pulmões. Tudo é uma fantasia sequenciada por desastres e medo. Medo com letras esparsas dentro das suas telas. Seria eu parte do seu emaranhado de mercado? Suas histórias de 20 anos ou 20 cigarros atrás? Não tenho pelo que me imobilizar e bater palmas, não tenho a quem agredir. Eu sou sempre o meu e o seu alvo.

Written by Ísis Amadeu

8 de outubro de 2015 at 20:20

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amnésia retrógrada.

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sua morte nos meus passos, no meu corpo. delírio que morreu atropelado. que se perdeu em meio às minhas memórias dos últimos 20 anos. como eu pude esquecer uma vida inteira se essa foi minha única forma de contato com tudo que eu vim a conhecer até hoje?

me escuta. volta a me escutar e me absorver. quem sabe assim eu recupere parte do que deveriam ser minhas lembranças.

sua morte na minha cama fria e acordada. sua morte como rabiscos pelo meu corpo. sua inexistência como a alma se dissolvendo.

morto como seus olhos em minhas mãos. minha morte nos seus sapatos, minhas raízes a te envolver. eu odeio os vários jeitos como você se materializa frente aos meus olhos. dissolver e mudar as coisas me interessa mais.

a liquidez dos dias. a sua própria liquidez dentro das minhas sensações tão pouco lúcidas. eu te percebo como um líquido gelado que me envolve, a água do chuveiro recém ligado à qual meu corpo precisa ir se acostumando gradualmente.

os dias me sugam, me tragam, me fazem virar cinza. meus sentimentos me poluem, me envergonham, me sujam de uma amabilidade que eu nego. tudo parece querer convergir para me matar.

o que há de errado comigo?

estou evitando escrever. estou evitando assumir que me preocupo. morto, morto, morto, como os finais que eu não conseguia prever naqueles olhos castanhos e quietos. o afago é a véspera do escarro. o amor é o prenúncio da desgraça.

o esquecimento é a verdadeira face da morte.

Written by Ísis Amadeu

8 de outubro de 2015 at 18:58

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o da morte pelo excesso

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I watch you disappear through my skin
I dont fully recognise myself in other people
Neither in you.

Eu sinto uma estranha e quente necessidade de permanecer só
Tragando um cigarro, tomando um chá
Sempre me queimando através de excessos
Sempre me reconhecendo cada vez menos nos outros
Enquanto você caminha na minha direção – se é que caminha em minha direção –
Não é para mim que você olha
Seus olhos permanecem no factual, no ascendente
No longínquo
Incandescente.
Ignora o que se opõe a você
Para me remendar aos poucos
E me ver morrer de perto.

Written by Ísis Amadeu

8 de outubro de 2015 at 18:35

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Fria.

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Você é passado confuso na minha alma. Passado que se fundiu aos meus opostos, que se degradou junto com meus traços de personalidade. Passado que me tornou mais forte. Hoje eu sei me levantar e ir embora, aprendi isso com a dor, muito antes de você.

Entretanto desaprendi a confiança das paixões fúteis, desaprendi a calma das tardes de domingo, desaprendi a voltar para o final de semana com temor, passei a ter para onde e para quem fugir.

Meu pecado: te dedicar minhas 100 páginas escritas, meus rascunhos, meu sangue.

Sem amor, voltei a ser cruel. Sem amor, voltei a cuspir na cara dos momentos felizes. Sem amor, voltei a achar o amor feio. Amor que não era amor. Amor que era vinho barato, que era chá frio.

Vou chorar por uma noite. Talvez chore duas. Talvez chore durante a tarde.

Quero remorso, quero ser repugnante, quero que você queime as minhas palavras boas.

Eu tento ser má porque a frieza me isola.

Quero dar a última palavra, e ela será um adeus de alguém indiferente.

Não me arrependo.

E não peço desculpa.

Eu quero viver.

Written by Ísis Amadeu

31 de julho de 2015 at 15:00

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Extinção/Neurose Experimental

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Eu quero desaparecer como um objeto impermanente
Eu quero que os meus reflexos condicionados em relação a você sejam desaprendidos
Quero parar de racionalizar, sublimar
Aprender a desviar minha atenção e não te ouvir mais
Te espantar do meu córtex frontal
Parar de me psicanalisar, avaliar
Desaprender a falsa posse
Reeducar minha linguagem
Me desenvolver e articular por etapas
Me apropriar dos elementos culturais
E depois transpô-los
Esquecer a sua complexidade comportamental
Parar de te arrastar para a profundeza dialética
E olhar nos olhos de um escritor soviético qualquer.

Written by Ísis Amadeu

31 de julho de 2015 at 14:10

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Azul, Lua

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Beba-me em meio a teias de aranha
E palavras ininteligíveis nas paredes
Eu fecho os olhos e corro e o mundo
Não está morto
Não agora
Enquanto Napoleão passa pelos objetos e canteiros
Respiro fundo e a historia já mudou
Eu fecho os olhos e o mundo não está morto
O mundo é estável, mas não é uno
Flui, se transforma, mas sobrevive
E porque eu teria também que adoecer e morrer enquanto o mundo consegue se superar?
Você controla o quanto ama, eu controlo o quanto me liberto
Somos o som do riso que escapa da criança no silêncio
E os irmãos se batem, não possuem linguagem
Seu movimento é o tátil.
Se eu quebrar a parede ou criar uma
A parede ou falta de parede será superada pelos seus olhos escuros e bêbados.

Written by Ísis Amadeu

31 de julho de 2015 at 13:57

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