Sobre um tempo que já morreu

(sur un temps qui est mort).

O Monólogo do Amor que Ficou em Casa

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Julia, você é triste, mas me aguenta enquanto eu falo sozinha, pensando tudo ao mesmo tempo, jogando informação vomitada nas paredes do apartamento. Tudo em você me deprime, mas eu te agradeço por ter ficado aqui em casa, ao invés de ir embora e se tornar — talvez — ainda mais enfadonha. Você dorme comigo, Julia, e ainda por cima ri das minhas piadas com trocadilhos ultrapassados. Eu me segurei para não te mandar embora quando, depois de três semanas viajando, cheguei em casa e encontrei meu rato morto, inerte na gaiola. O rato que você prometeu alimentar. Mas não havia problema, pois você estava lá, estava comigo, e nunca me deixou, mesmo com sua negligência e arrogância. Na época em que você ria das minhas piadas e isso me fazia feliz, eu ainda não sabia ler faces, sendo assim, não sei dizer se agora você ri forçada porque minha graça já se esgotou e pensa que isso deve me fazer feliz ou porque você já não encontra a porta que te leva para fora dessa casa. Como a porta é de fácil acesso, e você continua comigo, presumo que você ria porque decerto isso me faz bem, ou fazia, na época em que eu não podia ler seu rosto.
Aliás, você foi meu experimento máximo nessa arte, Julia. Tão cínica, tão irônica, mentirosa. Você dissimula todos os olhares maus que eu precisava aprender durante o estudo. Não me importo com o fato de que você mente, manipula, destrói, porque você vem, divide a cama pequena, divide esse corpo magro demais com a minha vontade, e acima de tudo, ficar é seu ponto chave. Ainda não sei porque você fica. Não é algo que eu posso ler nas suas mentiras, mas tenho um bom palpite: você fica porque está cansada de morrer na memória das pessoas, como um cigarro que se apaga e é jogado no lixo, quando não em um lugar qualquer da rua, como as cinzas jogadas na pia. Você quer ser minha sombra fixa, me atormentar o quanto puder, pelo máximo de tempo que não te cansar, afinal eu não tenho uma outra escolha, e me faz feliz ter você ocupando o apartamento, apesar desse corpo esquálido.
Não vou dizer que as suas grosserias me fazem feliz. Obviamente, ainda consigo ver algumas coisas com clareza. Minha ventura nesse jogo todo não é não me iludir, e sim me contentar.
..
Essa noite você estava em casa de novo, seu corpo saindo da cama vagarosamente, apesar de leve, me despertou. Sei que não era seu corpo, sei que era o fantasma que eu guardo nos pulmões e que você não está mais aqui. Na parede ainda está uma frase do último livro que li, que você escreveu com caneta hidrocor, ao lado de um yin yang, que sempre esteve lá, por algum motivo que eu não tenho vontade de questionar.
“¿Qué sentido tiene estar con alguien si no te cambia la vida?
(…) la vida sólo tenía sentido si encontrabas a alguien que te la cambiara, que destruyera tu vida.”
Eu disse que a minha destruição era você.
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Written by Ísis Amadeu

28 de janeiro de 2015 às 0:49

Publicado em Uncategorized

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