Sobre um tempo que já morreu

(sur un temps qui est mort).

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amnésia retrógrada.

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sua morte nos meus passos, no meu corpo. delírio que morreu atropelado. que se perdeu em meio às minhas memórias dos últimos 20 anos. como eu pude esquecer uma vida inteira se essa foi minha única forma de contato com tudo que eu vim a conhecer até hoje?

me escuta. volta a me escutar e me absorver. quem sabe assim eu recupere parte do que deveriam ser minhas lembranças.

sua morte na minha cama fria e acordada. sua morte como rabiscos pelo meu corpo. sua inexistência como a alma se dissolvendo.

morto como seus olhos em minhas mãos. minha morte nos seus sapatos, minhas raízes a te envolver. eu odeio os vários jeitos como você se materializa frente aos meus olhos. dissolver e mudar as coisas me interessa mais.

a liquidez dos dias. a sua própria liquidez dentro das minhas sensações tão pouco lúcidas. eu te percebo como um líquido gelado que me envolve, a água do chuveiro recém ligado à qual meu corpo precisa ir se acostumando gradualmente.

os dias me sugam, me tragam, me fazem virar cinza. meus sentimentos me poluem, me envergonham, me sujam de uma amabilidade que eu nego. tudo parece querer convergir para me matar.

o que há de errado comigo?

estou evitando escrever. estou evitando assumir que me preocupo. morto, morto, morto, como os finais que eu não conseguia prever naqueles olhos castanhos e quietos. o afago é a véspera do escarro. o amor é o prenúncio da desgraça.

o esquecimento é a verdadeira face da morte.

Written by Ísis Amadeu

8 de outubro de 2015 at 18:58

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o da morte pelo excesso

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I watch you disappear through my skin
I dont fully recognise myself in other people
Neither in you.

Eu sinto uma estranha e quente necessidade de permanecer só
Tragando um cigarro, tomando um chá
Sempre me queimando através de excessos
Sempre me reconhecendo cada vez menos nos outros
Enquanto você caminha na minha direção – se é que caminha em minha direção –
Não é para mim que você olha
Seus olhos permanecem no factual, no ascendente
No longínquo
Incandescente.
Ignora o que se opõe a você
Para me remendar aos poucos
E me ver morrer de perto.

Written by Ísis Amadeu

8 de outubro de 2015 at 18:35

Publicado em Texto

307.

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Você me mostrou Londrina de um jeito novo, coloriu o Igapó de vermelho acinzentado, me vestiu de verde para que combinássemos, e estava tão linda que a cada rua eu podia ver um reflexo de arco-íris em seus olhos, ou no amor que tomava conta dos meus. Carreguei o seu violão durante todo o percurso, desejando que um dia você me fizesse canções e me tornasse um pouco real.

Muitas coisas aconteceram comigo desde que passei a ouvir sua voz, despreparada, sutil, que reflete tanto da injustiça que minha alma traz e dessa confusão que eu faço com os dias e lugares por onde já estivemos, mesmo que em pensamento, mesmo que de forma fantasiosa, mesmo que apenas em uma pequena vontade.

Written by Ísis Amadeu

23 de março de 2014 at 1:03

Publicado em ônibus, Curtos, Texto

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#ja perdi a conta, pois não sei mais contar os dias

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eu não chego mais a sentir falta, mas sempre me vêm uma nuvem meio esquisita, que demonstra que não somos mais nada que possa se relacionar. eu amo a vida e a destruição que existem no meu lado mais fraco e mais forte ao mesmo tempo. amo investir nas minhas partes mais desfalcadas de atenção, amo poder me focar em vários e vários pontos, com objetivos esparsos e divididos, dar o progresso que me agradar aos meus planos infinitos, amo ter todos os dias livres para que a minha loucura escorra pelos cantos da cidade, estar pronta em vinte minutos para aquelas interrogações cósmicas que explodem invisivelmente enquanto eu rondo e procuro, sem meu nome verdadeiro em mãos, sem nenhum dos meus antigos vínculos, sem aquelas manhas para segurar, aprendendo a dar um passo de cada vez, não mais na direção dos seus olhos, mas sim na direção que eu sentir que é a exata, testando uma possibilidade cada vez que o vento bater no meu rosto desajeitando o meu cabelo e me dando aquela sensação de que as noites nunca vão se acabar, e de que o meu espírito tem liberdade para não voltar para casa nunca mais.

Written by Ísis Amadeu

17 de fevereiro de 2014 at 15:45

Publicado em Texto

clap clap clap.

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então eu prometi que escreveria histórias sobre as minhas noites para que ele entendesse como eu via, perdia rumos e me perdia na cidade borbulhante. mesmo que ele não fosse ler, mesmo que fosse deletar meus emails intermináveis, queimar minhas cartas ao passar os olhos pelas minhas iniciais no canto do envelope, me detestar pelos detalhes e pelas sensações que não eram voltadas a ele, mesmo que nunca fosse me perdoar por arrancá-lo desse estágio da minha vida, e por tirá-lo da paz quebradiça toda vez que tentava ter notícias, e enquanto nós temos esse tipo de discussão eu escuto o clap clap clap da minha cabeça chiando, que acompanha minha tosse quase atacada de tuberculose quando ouço esse tipo de coisa que eu não suporto que ele pense simplesmente por fazer parte de uma realidade tão distorcida, porém eu entendo todos os motivos pra que ele pense assim e entendo que tudo tenha chegado a esse quase-nada onde o quase se resume a discussões sem fim e sem valor, porque seria fácil acabar em eu te amo volta pra mim, mas ele não consegue, quer entender, então vou escrever cada minuto, cada hora dolorosa acordada até de manhã – quando eu deveria estar indo à aula – do clap clap clap de quando a minha cabeça não consegue mais suportar o que eu tenho ao meu redor pra me deixar cada vez mais louca e sozinha.

eu quero tentar fazer com que ele entenda. depois, volte, me perdoe, me esqueça, ignore – estará registrado, de qualquer forma – rasgue o 3×4 na sua carteira se ainda existir, vá para londrina, case comigo, fique em casa chorando e sonhando em como seria nossa vida se não fosse a minha habilidade de estragar tudo, mas aproveite meu esforço. e entenda. eu não faço por pensar. eu faço por experimentar.

 

/agosto, 2013.

Written by Ísis Amadeu

16 de fevereiro de 2014 at 23:35

Publicado em Antigo, Texto

sobre um tempo que já morreu.

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sur un temps qui est mort.

ce dejà mort.

(…) é que de todas as pessoas, você foi a que eu mais gostei de conhecer a fundo. aquela história de que sempre vai haver uma parte sua ligada a mim, independentemente do passar do tempo, eu não vou conseguir me desfazer disso. acho que você nunca chegou a entender esse lado, ou ao menos a tentar. se eu não conversar contigo, nunca vou sanar minha necessidade de compreensão, mas você se fecha mais que eu. fica martelando pra evitar sofrer por algo, sendo que a forma mais fácil seria enfrentar o que a gente escolheu.

você não entende que eu preciso levar na boa pra parar de passar mal ao ouvir seu nome. e é cada vez mais impossível, porque ele me deixa um gosto forte de remédio na garganta, uma náusea do passado que sempre vai estar lá quando eu pensar nas nossas grandes esperanças, nas possibilidades, no que eu sei que não foi e nunca poderia ser.

Written by Ísis Amadeu

16 de fevereiro de 2014 at 21:41

Publicado em Cartas, Curtos, Texto

Londres #3 – Os Colapsos

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Londres, eu prevejo colapsos,
eu prevejo finais.
Londres, eu tenho medo de me enterrar em um novo grande perigo.
Porque, minha amiga, você já me trouxe 4 grandes decepções, então entenda,
já estou farta de desespero.
Até quando terei que fingir não escutar meu coração martelando desenfreadamente
ao ouvir seus passos no corredor?
Sempre que eu sinto você se aproximar com os dias,
sempre que me sinto como sendo sugada em sua direção, Londres,
eu me sinto mais morta, menos eu
e me sinto mais livre de pesos passados
sinto um maior frescor diante da liberdade.
Mas o que dizer das intensas e recentes felicidades
que têm feito minhas noites explodirem?
Eu prevejo uma nova depressão, Londres.
Prevejo mais uma grande queda,
caminho com cuidado porque sei que a qualquer momento tropeçarei.
Você ainda me faz de amante
e ainda me ignora da mesma forma vazia do último inverno.
Nós sabemos que, para mim, seria impossível te deixar
por favor, não abuse mais deste fato.
Não se torne mais uma das minhas tentações perigosas.
É pesado me dividir entre dois caminhos tão impossíveis de serem balanceados,
uma cidade com um inverno de morte, e outra com contínuas noites de verão
e pedaços de manhãs sonolentas escorrendo pelas janelas.
Estanquei no caminho.
Um universo de intrigas queima aos poucos na minha mão.
Tenho sérios problemas com não saber esperar
e ao mesmo tempo esperar pequenos futuros desfavoráveis fugindo do meu controle.
Tenho medo de me decepcionar novamente quando chegar a hora e o fim.
Tenho medo de atravessar o caminho do lago congelado novamente com lágrimas geladas nos olhos,
com a direção voltada ao vidro embaçado como se assim pudesse ignorar o mundo,
como se fosse refletida a imagem de todos os dias que me trouxeram aquela satisfação do antes de dormir,
de desabar na cama e perder a consciência,
de ter a noite passada como um quebra cabeça mental com peças que se perderam pela casa
e que aparecem aos poucos, na escrivaninha, no canto do sofá, debaixo da cama, no seu reflexo no espelho do banheiro,
mas nunca chegamos a encontrar todas as peças para montar a imagem completa.
Algumas coisas são vividas, e é só.
Não devem durar, não devem trazer remorso, devem ficar guardadas porque, Londres,
esses dias vão acabar, e a imagem incompleta vai me quebrar os olhos pela quinta vez no último ano.

Written by Ísis Amadeu

8 de fevereiro de 2014 at 13:05