Sobre um tempo que já morreu

(sur un temps qui est mort).

Falsificar

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te planejo
te organizo
sou seu mediador, seu cientista
sua existência está planejada em mim
como os traços de um redemoinho de cabelos na nuca
ou você salta ou me persegue
ou você se arrepia ou se queima
ou você olha nos meus olhos e diz que me pertence
ou deixa de existir.
falar, perceber e agir são um só
relacionar seu corpo ao meu
processo de negação do movimento da sua mandíbula
se eu penso e verbalizo, minha língua se afasta
divergindo, rompemos
enfim, sintetizamos
meu pulso manchado de tinta pede sua mão a apertá-lo
a praticar gestos violentos que me salvem
da violência que há em mim
te fundamento
te materializo
te articulo
te prevejo e tento te tornar como eu
caracterizo

(te falsifico)

e te rompo.

Mar/2015

Written by Ísis Amadeu

31 de julho de 2015 at 13:53

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Eu gosto do seu perigo,

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e a verdade é que eu sempre gostei, e esse fato faz com que você seja mais eficaz na hora de trazer à tona todos os meus hábitos fracos e errados. Entretanto, a outra verdade é que de fato, não sou essa pessoa. Sequer gosto de cheiro de cigarro.

Seu gosto de café solúvel velho com os cigarros que roubou de mim e adultério líquido, a barba serrada raspando no meu ombro que você beija antes de ir, enquanto ainda me engana e pode me abraçar.

Você sabe muito bem o sentimento que a falta de palavras me causa. Você sabe, você sabe, você sabe, eu digo na pressa, e não tenho mais nada a dizer, a não ser que sinto falta de ter aquelas sensações fermentando dentro de mim, e eu tenho muito medo de que seja tarde. Nada escrito, rascunhos de duas linhas, começos de histórias quebradas que não levam a lugar nenhum.

Escrevo seu nome e fecho os olhos. O papel some e aos poucos vou virando parte do seu cigarro queimado. Cinzas na prateleira, peixes que não nadam mais porque pararam de respirar. Você me completa.  É por isso que estou aqui, é por isso que volto. Você e as permissões e as vantagens e o vermelho sangue da tua bandeira e o beijo que eu dei naquela medalha antes de te dar de presente. Meus lábios queimam no fim do cigarro, reabro os olhos e vejo a Praça Vermelha.

Quero ir para outro país só pra fugir das coisas de novo. Dos seus risos, da sua voz cochichada. Lembro que quando eu estava longe, tomando um chá russo amargo e pensando em quanto tempo mais faltava para estar de volta, pensando nos seus cabelos e nas noites de garrafas se esvaziando, quis mais do que tudo poder ser eu e estar confusa novamente, mas quem esteve na Rússia e depois veio te acariciar os cabelos ao som de músicas antigas e sob efeito de cerveja não foi a mesma pessoa, e não posso mais defini-la como “eu”.

I want you to notice when I’m not around.

Written by Ísis Amadeu

28 de janeiro de 2015 at 10:06

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O Monólogo do Amor que Ficou em Casa

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Julia, você é triste, mas me aguenta enquanto eu falo sozinha, pensando tudo ao mesmo tempo, jogando informação vomitada nas paredes do apartamento. Tudo em você me deprime, mas eu te agradeço por ter ficado aqui em casa, ao invés de ir embora e se tornar — talvez — ainda mais enfadonha. Você dorme comigo, Julia, e ainda por cima ri das minhas piadas com trocadilhos ultrapassados. Eu me segurei para não te mandar embora quando, depois de três semanas viajando, cheguei em casa e encontrei meu rato morto, inerte na gaiola. O rato que você prometeu alimentar. Mas não havia problema, pois você estava lá, estava comigo, e nunca me deixou, mesmo com sua negligência e arrogância. Na época em que você ria das minhas piadas e isso me fazia feliz, eu ainda não sabia ler faces, sendo assim, não sei dizer se agora você ri forçada porque minha graça já se esgotou e pensa que isso deve me fazer feliz ou porque você já não encontra a porta que te leva para fora dessa casa. Como a porta é de fácil acesso, e você continua comigo, presumo que você ria porque decerto isso me faz bem, ou fazia, na época em que eu não podia ler seu rosto.
Aliás, você foi meu experimento máximo nessa arte, Julia. Tão cínica, tão irônica, mentirosa. Você dissimula todos os olhares maus que eu precisava aprender durante o estudo. Não me importo com o fato de que você mente, manipula, destrói, porque você vem, divide a cama pequena, divide esse corpo magro demais com a minha vontade, e acima de tudo, ficar é seu ponto chave. Ainda não sei porque você fica. Não é algo que eu posso ler nas suas mentiras, mas tenho um bom palpite: você fica porque está cansada de morrer na memória das pessoas, como um cigarro que se apaga e é jogado no lixo, quando não em um lugar qualquer da rua, como as cinzas jogadas na pia. Você quer ser minha sombra fixa, me atormentar o quanto puder, pelo máximo de tempo que não te cansar, afinal eu não tenho uma outra escolha, e me faz feliz ter você ocupando o apartamento, apesar desse corpo esquálido.
Não vou dizer que as suas grosserias me fazem feliz. Obviamente, ainda consigo ver algumas coisas com clareza. Minha ventura nesse jogo todo não é não me iludir, e sim me contentar.
..
Essa noite você estava em casa de novo, seu corpo saindo da cama vagarosamente, apesar de leve, me despertou. Sei que não era seu corpo, sei que era o fantasma que eu guardo nos pulmões e que você não está mais aqui. Na parede ainda está uma frase do último livro que li, que você escreveu com caneta hidrocor, ao lado de um yin yang, que sempre esteve lá, por algum motivo que eu não tenho vontade de questionar.
“¿Qué sentido tiene estar con alguien si no te cambia la vida?
(…) la vida sólo tenía sentido si encontrabas a alguien que te la cambiara, que destruyera tu vida.”
Eu disse que a minha destruição era você.

Written by Ísis Amadeu

28 de janeiro de 2015 at 0:49

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Você, ao infinito

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eu sinto uma grande angústia que teme
atravessar minhas cordas vocais
meu corpo quer sonhar com seus olhos
te escutar e misturar meu sangue no seu.

eu já lutei contra demonios, e não vou pedir
para que voce acalme os seus
Simplesmente vou chorar, com um buraco nos olhos
e uma estação de trem na cabeça

deixo esse tunel me invadir,
em dois minutos vou me afogar,
em nome de todas as coisas que não existiram na realidade

voce esteve longe de protagonizar algo comigo
era o tempo passando no fundo das fotos
e mais tarde me acordou falando que nosso sangue era incompativel

não te encontro no meu suor,
mas te vejo ainda no fundo das fotos,
e eu não estou na suas

voce sempre existiu
mas nem sempre existiu
na imagem projetada pela minha retina.

meu pressuposto é que eu não esteja dentro disso
meu pressuposto é não te perder de vista enquanto ouço conselhos

por que e para quem a verdade?

Written by Ísis Amadeu

28 de janeiro de 2015 at 0:22

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a minha teoria,

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e a filosofia de vida que eu uso pra todas as coisas, e que interfere principalmente no que eu posto aqui, é que as coisas tem um vencimento. o fato do nome desse blog se referir a um “tempo que já morreu” não é por acaso. só sei expor o que já venceu, que não tem mais significado, que não não pode ser mudado. há certas coisas no passado que não conseguem machucar mais, e isso vem muito das ideias claras que temos ao escrever sobre elas. eu temo que o presente vire passado, e sempre ajo com cautela em relação a isso. me dói pensar nas coisas finitas, e todas elas são, a não ser o próprio tempo. quando eu começo a prever os finais, e sobretudo vê-los tendo seu início, me vêm uma melancolia pesada, porque há pessoas que eu não vou olhar outra vez nos olhos, e quanto mais perto se está de acabar tudo, mais impossível fica lançar aqueles olhares cinematográficos de despedida. digo isso porque na verdade esses olhares finais não existem, a não ser na ficção. entretanto, eu sei que você vai lembrar daquele último olhar burro de forma nostálgica, os dois segundos de silêncio antes de ir embora.

eu preciso viver, e preciso escrever com sangue. eu quero sentir algo. quero que as emoções parem de se esgotar.

Written by Ísis Amadeu

30 de novembro de 2014 at 1:05

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Te refuto.

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Tento te vender essa história como um benefício.
Te distrair o quanto puder para que você
sempre tenha uma forma de me ver por engano.
Me perfurar com olhos claros.
Reter calor sob o guarda chuva na tempestade.

Destruir,
desmembrar,
cumprir metas,
iluminar.

Hoje é dia de ensaiar os quadrados urgentes do acaso
até que se realizem.
A chuva chama com urgência e os minutos se arrastam
rumo ao contorno dos quadrantes.

Espero que eu esteja na sua lista,
junto das atividades urgentes,
pois meus conflitos me levam
a trabalhar mentalmente com o jogo por vir.

 

Written by Ísis Amadeu

3 de agosto de 2014 at 1:41

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Pense duas vezes.

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Espera um minuto que eu vou jogar as moedas do I-Ching pra te encontrar, sob o mesmo feitiço que o Sérgio Sampaio. Traçar as linhas a cada rodada, tomar goles fortes desse cappuccino velho, abrir a janela para ver como está o tempo, ler minhas respostas, interpretar junto com a música que eu acabei de colocar pra tocar.
Eu me lembro de cada detalhe da falta de foco, da distorção, do conforto, da chuva, da aleatoriedade, da ilusão…

It ain’t no use to sit and wonder why, babe
If you don’t know by now.

Você tem estado constantemente ausente, de um jeito gasto, de um jeito que me acalma por ser algo tão previsível e me deixar numa solidão inteiramente confortável. Quero apenas desatar este nó podre que resta, em forma de fotos na escrivaninha, cartas na gaveta, letras de musica na agenda que eu compus pra você no ônibus ou na aula. Há quanto tempo eu tenho prometido queimar essas coisas? Por que não temos sidos nós mesmos, e apenas nós dois em essência, ao invés de mascarar todos os problemas com uma falsa ideia de que sempre há um problema alheio a ser resolvido, uma tarefa indispensável a ser feita, essas coisas que não ocupam o tempo, mas apenas esvaziam a mente? Pegue uma carta no baralho e diga meu nome em voz alta. Não me deixe ver.

So it ain’t no use in callin’ out my name, gal
Like you never done before.

Eu vou te encontrar, e não ouso cobrar aqueles dois ou três favores, nem fazer com que você se sinta obrigado a me obedecer. Te observarei, e é só. Eu saberei o momento, você saberá das minhas intenções. Eu quero manter o controle de tudo que tiver um mínimo perigo em potencial, quero saber até que ponto você será apenas uma ameaça de destruição.

I’m a-thinkin’ and a-wond’rin’ walking down the road
I once loved a woman, a child I’m told
I give her my heart but she wanted my soul

Agora, esqueça as cartas. Pense na noite da chuva calma, e de onde quer você esteja, corrija-me se eu estiver enganada, mas eu tenho absoluta certeza do quanto foi trabalhoso se convencer de que havia algo a acontecer além dos momentos bonitos desajeitados e provavelmente planejados com falta de sucesso, com aquelas frases que você passou os três dias anteriores arquitetando. Algo além do seu esforço pra me conhecer e do meu para te desvendar. Aquela noite foi o começo do meu suicídio, talvez o gatilho do seu, isso eu já não saberia dizer ao certo. Farpas nos dedos. Tiros em diversas direções. Nos fizemos de cobaia um do outro, e chegamos a direções contrárias no final.

I ain’t sayin’ you treated me unkind
You could have done better but I don’t mind
You just kinda wasted my precious time
But don’t think twice, it’s all right.

Written by Ísis Amadeu

3 de agosto de 2014 at 1:27

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