Sobre um tempo que já morreu

(sur un temps qui est mort).

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nem que o ar que nos estoura tenha de ser mantido entre nós para sempre. nem que todas as palavras que já dissemos venham torrencialmente e inundem nossas cabeças com o eterno FLAC FLAC FLAC da navegação sempre sempre sempre nem que as leis humanas morais cósmicas tenham que se quebrar para nos favorecer,

porque todas as leis serão nossas
enquanto suspiramos e
cambaleamos
perdendo o ar
perdendo a sanidade
em nome do sentido cósmico
rumo à transcendência
e à loucura espiritual

além do sentido de estar louco

não sei porque estou louco
tampouco porque desejo se-lo

prova minha boca ao teu ouvido,
prova minhas leis sendo o domínio do teu corpo
prova esse pedaço de epifania
que eu cedo aos montes

e tente não sair
completamente aprisionado
pelo desejo de transgredir.

Londres.

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Londres, você me aterroriza,
tomou meu amor e agora se queixa de que a minha solidão não pode ser voltada somente para você.
Londres, você tem sido egoísta
ou eu tenho sido egoísta por ter deixado que você engolisse o meu amor?
Londres, às vezes eu penso que vamos explodir,
me vejo em sonhos, afogando no seu lago insano e cinza
todas as manhãs, eu penso que o lago carrega morte, e vejo morte refletida na janela do ônibus que me leva.
Londres, eu pedi para vir até mim
como uma amante conhecida de longa data e já dona de algumas rugas,
porque não me trata com amor, como se fôssemos agora inseparáveis pela tortuosidade dos fatos?
Londres, você entristeceu meu espírito,
cuspiu na nuvem carregada de sonhos de noites incertas e intermináveis para que ela explodisse
em chuvas de fim de tarde, me fez sonhar com outros ventos.
Londres, você me fez ficar nua
em sua cama de viúva, olhou para o meu corpo e se deitou ao meu lado, sem me abraçar,
sem me cobrir nas noites frias, sem me desejar.
Londres, não há uma guerra de  bombas, e sim uma guerra entre almas e corações e mente nervosas
o que você tem a dizer sobre as guerras? Minha própria vida é uma bomba.
Londres, eu vejo que você quer soltar da minha mão,
você não me quer de volta nos seus braços ou já tem alguém melhor a quem amar?
Londres, eu me pergunto se você realmente me amou,
se me beijava com vontade, se me queria só para diversão, se acariciava meus cabelos por curiosidade ou por afeto.
Londres, você pretende continuar me amando?
Quando vai passar a me beijar ao se despedir ou ao me cumprimentar?  É preciso algum acordo formal?
Londres, você tem me sufocado com sua neblina
mal posso ver meus passos. Mal posso ver o quanto estou afundando.
Londres, acho que eu preciso de um tempo,
eu preciso pensar a sós, longe dos seus artifícios de ex namorada enciumada.
Londres, eu quero que você compreenda, e que me faça compreender as loucuras para que me leva.
Londres, eu quero acordar
em casa, longe dos seus beijos de Capitolina, longe das tuas danças em meio a véus que a tornam misteriosa.
Misteriosíssima, eu diria.
Londres, não me faça ser dura,
eu quero acordar com seus olhos nos meus, com as suas mãos sobre meus seios e com seus sorrisos incandescentes,
porém preciso ajeitar a minha cabeça e a dos outros.
Londres, você não quer que eu tenha outros amigos?
Eu vou precisar ter companhia e apoio quando você me deixar.
Londres, por favor, me deixe descansar
nos seus braços nas suas ruas sob o seu cobertor nos meus sonhos no seu sofá de couro alaranjado, eu sei que posso descansar.
Londres, quando é que vai parar de me ferir?
Quando vai parar de tomar parte da minha vida para se fazer feliz e importante?
Londres,
eu te amei desde quando você foi uma sombra incerta
projetada pela paixão dos meus 16 anos
por uma vida sob um céu de interrogações cósmicas
e aventuras incandescentes que rasgariam as mil estradas que me levam a você
e ao meu mundo.

*Inspirado em América, de Allen Ginsberg.