Sobre um tempo que já morreu

(sur un temps qui est mort).

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sem cura salvação promessa futuro calma

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e então em meio aos devaneios – você já tem que se esforçar para engolir o café – as suas mãos trêmulas tentam encontrar as páginas certas dos livros que vão te curar, os poemas grifados lidos em voz alta, as palavras que ecoam em sua mente como CURA SALVAÇÃO PROMESSA FUTURO CALMA

– calma,

eu digo a mim mesma, mesmo sabendo não ser o suficiente, você conta as horas, você dá voltas, aperta a cabeça e os olhos como num pedido de socorro aos céus como num velho filme piegas, como um filho convertido e cansado CANSADO, ENTENDE? as mãos continuam frenéticas, pedindo algum sentido à vida, você já não sabe mais se é um poema, um longo texto grifado ou se são apenas palavras dadaísticamente soltas numa maré de promessas a si mesmo, o eco do futuro, sua vida como os pequenos filme alucinógenos de deus, mais poemas em voz alta para calar a voz da sua mente atormentada, mais e mais e mais e mais infinitamente as cobranças que não lhe cabem porque o mundo é mais do que o propósito vulgar supõe, o mundo é um resultado, a vida é um acidente mesclado de possibilidades a serem encontradas e sempre rejeitadas em nome de um roteiro que conhecemos como fórmula do sucesso, mas me expliquem o que é sucesso, se é apenas uma espécie de desafio ou realmente a exatidão estranha e cega, a cidade fervilhando, a cidade fervilhando e te chamando, o chamado do asfalto, da carne queimante do coração bombeando sangue cada vez mais forte por se estar próximo do auge, do grandioso espetáculo mas E SE e se eu não quiser mesmo isso, e se isso for apenas um sonho e não uma forma real de contentamento, e se ISSO for apenas uma partícula do ROTEIRO QUE EU NÃO QUERO, DO SONHO ERRADO, E SE eu estiver errando?

e se eu errar?

o que acontece depois que eu apodrecer? gritei para ginsberg, e a resposta estava incólume em meu estômago revoltoso devido ao café

o que resta de mim é o que resta do sartre, do kerouac

la nausée

o delirium tremens

a destruição

o colapso.

o nada.

me digam, quem não vai morrer? porque viver para obter? porque a consciência carrega tanta tormenta? porque contradizer? porque eu contradigo, digo, queria aceitar, se é que você me entende. eu queria definitivamente poder me enquadrar neste mundo perfeito de sentido e forma.

mas a vida é extensa.

e eu já comecei errando demais.

estresse.

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estresse. calma. estresse. pressão. não adianta folhear todos os livros que eu deixo em cima da cama. não haveria resposta. não há forma de gritar através de palavras. elas não me vem. a não ser desespero, desespero, desespero.

é claro que eu prefiro o perigo, prefiro o incômodo, o ponto que coça no meio das costas, o amargo do primeiro gole ou o doce extremo do fundo da caneca de café mal misturado. mas nesse momento eu não tenho um olhar que me salve, um coração que me alerte, um ouvido que aguente saber das minhas vãs esperanças.

é um acúmulo do imaginário com a tontura do tempo girando devagarinho, tão devagar que me impede de explodir, de te tentar cada dia de um jeito novo, até conseguir, incessantemente. meu modo incansável de agir, minha obsessão neurótica, meus exageros, querer tudo como meu.

(quero você como um desafio a ser cumprido).

sobre a náusea, o igual e o sono.

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eu tento fugir do trivial e do quotidiano usando sempre essas mesmas palavras, sentindo e escrevendo sobre estar escrevendo mal, escrevendo sempre sobre essa mesma náusea que me tira a vontade de viver. sou um cadáver sendo empurrado para onde estão todos os outros cadáveres. sou uma mesmice, uma expressão inalterada, um sorriso de falsa simpatia e interesse. um cansaço gotejante. escrevo essas coisas ruins – novamente entrando na mesmice de escrever por escrever e esquecer – até que o sono se abra e me arraste através dele, retirando dos meus ossos todas as discordâncias do dia; que todo dia que passa faz com que chegue mais perto essa grande prova de que eu nunca vou ser nem o que eu quis pra mim, nem o que os outros me fizeram acreditar que convinha ser. eles nos obrigam a esquecer quem somos, a não nos procurarmos e defendermos de quem inibe nossa criatividade, nossa fome, nossos sonhos. eles nos obrigam a escolher para que haja mais gente “seleta e vencedora” como eles. um mundo dito normal, sem voltas, sem oscilações, sem paixões. eu não posso querer nada que queime em mim por si só, nenhuma vontade indefesa sem razão aparente pode brotar, nenhum desejo que exista apenas por mim, para a minha satisfação pessoal, mesmo que sempre como um desejo. reprimir! reprimir as ideias e os sonhos! não é mais permitido sonhar com o que não se poderá obter, então faça como eles: seja, respire, ande, compre e se dará bem!  seja como eles e não resista! não sonhe! não almeje algo fora do vulgar! não seja só sozinho, nem só com seus amigos normais e seguidores da ética, da moral e da vida em sociedade. pense como eles, fale, aja! em breve, você os verá como estranhos, verá a zombaria e eles quererão transformá-lo num deles para o seu bem, seu futuro. não resista! não resista! pare de escrever, pare de tentar sentir e entender o que sente, pare de ler, pare de querer se diferenciar! fale o mesmo, compre o mesmo, COPIE. não sinta atração pelo estranho e não explorado, não sinta pelo seu corpo, não tenha prazer que não venha do que lhe ensinaram que o deveria trazer! não se pode mais resistir! o sono! ah, sono que mastiga meus ossos, o sono pesado que desce sobre mim e sobre todos esses que nunca viveram uma madrugada – pois essas não são coisa permitida na vida de gente normal – todos esses que apodrecem na madrugada, que nunca tiveram paixão por um café. deus, jogue-me nessa mesma vala em que eles se encontram e deixe-me dormir.