Sobre um tempo que já morreu

(sur un temps qui est mort).

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Fuga #2

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Dessa vez a culpa não foi da insônia, foi da tormenta dos últimos meses, da queda de muitas coisas que realmente importavam.

Todo aquele sonho de sair da cidade foi apagado. Eu consegui, sabia? Mas parece que há partes de mim que insistem em não me acompanhar. Recuam diante da ideia de uma cidade borbulhante à espera, não se curvam aos pés da não tão pequena, mas de certa forma elétrica Londres.

Foi exatamente isso: esse sonho me atravessou como uma corrente elétrica. Durou anos apenas como uma vaga sensação de desconforto, depois, conforme se arrastou por meu corpo, foi tomando forma e urgência, até que eu encontrasse uma cidade com suficiente insanidade para me acolher. E após enlouquecer, adoecer, martelar, desistir, dar a vida, esquecer dos meus motivos para ir, quebrar a minha necessidade de me desfazer desse conforto infantil juntamente com minhas esperanças eu entendi que a cidade não era um problema a ser resolvido. Essa negligencia em tratar meu futuro me trouxe até aqui, até esse quarto semeado de despedida involuntária. Percebi que não faz sentido mudar, não da forma como pretendia, sair fugida e imperceptível num dia nublado, ignorando o peso do meu novo e alucinante caminho. Consegui compreender este peso a tempo, e partir se tornou uma espécie de problema. Mas eu não queria seguir o que o mar sempre havia me gritado? Uma impotência me agride, e eu me sinto estonteada nesse quarto inundado – agora por confusão – e não há um canto bélico para o qual correr e me safar do peso de não ter tudo inteiramente à disposição.

Agora sinto que a cidade que maltratei está farta de mim, e não há solução, senão tomar o rumo do sul dourado e incógnito.

É preciso partir, tão cedo quanto o asfalto me chamar. É preciso deixar que TUDO aconteça.

Passei uma vida querendo fugir, e agora me vejo sob um novo céu, novas quatro paredes.
Não acredito. Não sei mais aceitar a dúvida como futuro.

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fev/2013

sobre a náusea, o igual e o sono.

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eu tento fugir do trivial e do quotidiano usando sempre essas mesmas palavras, sentindo e escrevendo sobre estar escrevendo mal, escrevendo sempre sobre essa mesma náusea que me tira a vontade de viver. sou um cadáver sendo empurrado para onde estão todos os outros cadáveres. sou uma mesmice, uma expressão inalterada, um sorriso de falsa simpatia e interesse. um cansaço gotejante. escrevo essas coisas ruins – novamente entrando na mesmice de escrever por escrever e esquecer – até que o sono se abra e me arraste através dele, retirando dos meus ossos todas as discordâncias do dia; que todo dia que passa faz com que chegue mais perto essa grande prova de que eu nunca vou ser nem o que eu quis pra mim, nem o que os outros me fizeram acreditar que convinha ser. eles nos obrigam a esquecer quem somos, a não nos procurarmos e defendermos de quem inibe nossa criatividade, nossa fome, nossos sonhos. eles nos obrigam a escolher para que haja mais gente “seleta e vencedora” como eles. um mundo dito normal, sem voltas, sem oscilações, sem paixões. eu não posso querer nada que queime em mim por si só, nenhuma vontade indefesa sem razão aparente pode brotar, nenhum desejo que exista apenas por mim, para a minha satisfação pessoal, mesmo que sempre como um desejo. reprimir! reprimir as ideias e os sonhos! não é mais permitido sonhar com o que não se poderá obter, então faça como eles: seja, respire, ande, compre e se dará bem!  seja como eles e não resista! não sonhe! não almeje algo fora do vulgar! não seja só sozinho, nem só com seus amigos normais e seguidores da ética, da moral e da vida em sociedade. pense como eles, fale, aja! em breve, você os verá como estranhos, verá a zombaria e eles quererão transformá-lo num deles para o seu bem, seu futuro. não resista! não resista! pare de escrever, pare de tentar sentir e entender o que sente, pare de ler, pare de querer se diferenciar! fale o mesmo, compre o mesmo, COPIE. não sinta atração pelo estranho e não explorado, não sinta pelo seu corpo, não tenha prazer que não venha do que lhe ensinaram que o deveria trazer! não se pode mais resistir! o sono! ah, sono que mastiga meus ossos, o sono pesado que desce sobre mim e sobre todos esses que nunca viveram uma madrugada – pois essas não são coisa permitida na vida de gente normal – todos esses que apodrecem na madrugada, que nunca tiveram paixão por um café. deus, jogue-me nessa mesma vala em que eles se encontram e deixe-me dormir.