Sobre um tempo que já morreu

(sur un temps qui est mort).

Posts Tagged ‘jack kerouac

sem cura salvação promessa futuro calma

leave a comment »

e então em meio aos devaneios – você já tem que se esforçar para engolir o café – as suas mãos trêmulas tentam encontrar as páginas certas dos livros que vão te curar, os poemas grifados lidos em voz alta, as palavras que ecoam em sua mente como CURA SALVAÇÃO PROMESSA FUTURO CALMA

– calma,

eu digo a mim mesma, mesmo sabendo não ser o suficiente, você conta as horas, você dá voltas, aperta a cabeça e os olhos como num pedido de socorro aos céus como num velho filme piegas, como um filho convertido e cansado CANSADO, ENTENDE? as mãos continuam frenéticas, pedindo algum sentido à vida, você já não sabe mais se é um poema, um longo texto grifado ou se são apenas palavras dadaísticamente soltas numa maré de promessas a si mesmo, o eco do futuro, sua vida como os pequenos filme alucinógenos de deus, mais poemas em voz alta para calar a voz da sua mente atormentada, mais e mais e mais e mais infinitamente as cobranças que não lhe cabem porque o mundo é mais do que o propósito vulgar supõe, o mundo é um resultado, a vida é um acidente mesclado de possibilidades a serem encontradas e sempre rejeitadas em nome de um roteiro que conhecemos como fórmula do sucesso, mas me expliquem o que é sucesso, se é apenas uma espécie de desafio ou realmente a exatidão estranha e cega, a cidade fervilhando, a cidade fervilhando e te chamando, o chamado do asfalto, da carne queimante do coração bombeando sangue cada vez mais forte por se estar próximo do auge, do grandioso espetáculo mas E SE e se eu não quiser mesmo isso, e se isso for apenas um sonho e não uma forma real de contentamento, e se ISSO for apenas uma partícula do ROTEIRO QUE EU NÃO QUERO, DO SONHO ERRADO, E SE eu estiver errando?

e se eu errar?

o que acontece depois que eu apodrecer? gritei para ginsberg, e a resposta estava incólume em meu estômago revoltoso devido ao café

o que resta de mim é o que resta do sartre, do kerouac

la nausée

o delirium tremens

a destruição

o colapso.

o nada.

me digam, quem não vai morrer? porque viver para obter? porque a consciência carrega tanta tormenta? porque contradizer? porque eu contradigo, digo, queria aceitar, se é que você me entende. eu queria definitivamente poder me enquadrar neste mundo perfeito de sentido e forma.

mas a vida é extensa.

e eu já comecei errando demais.

desajuste.

leave a comment »

então eu me vejo de novo naquela estrada eufórica do sonhos, mas sem a empolgação inicial. a visão da estrada sempre foi algo recorrente em momentos difíceis. nada me impulsiona a ir adiante. só consigo sentir uma imensa falta de vontade, um constante deslocamento, um medo das interrogações gigantes que surgem umas atrás das outras, até encher a tela da minha mente. é apenas isso. vontade de desistir, ir embora. não por ser difícil viver nesse ambiente, e sim porque ainda não encontrei um lugar. o lugar que mais esperei na vida não era pra ser meu, entende a sensação? talvez devesse ser outro curso, outra cidade, um ano de iluminação espiritual alcoólica e marginal, um tempo pra respirar fundo até ter certeza que encontrei, liberdade pra testar e mudar de ideia. liberdade…

eu constantemente penso: o que sal paradise faria? o que arturo bandini, de pergunte ao pó pensaria disso? tudo me leva a crer que eu devo experimentar ao máximo, arriscar, ceder aos impulsos, me inspirar. é esse o poder que a liberdade tem sobre mim.  e também, por poder trazer consequências pesadas, o tom de perigo e irresponsabilidade em algumas ocasiões traz uma euforia inigualável. essa é a graça de experimentar, de viver a vida em estado bruto e pleno com todas as emoções e pirações que ela puder causar. tem tanta coisa a ser descoberta, tanto mar… não há motivo para se acomodar.