Sobre um tempo que já morreu

(sur un temps qui est mort).

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faça (antes de eu morrer)

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faça meu coração disparar, faça com que eu sonhe e tenha esperanças e minta para mim mesma, porque quando eu estou com você a doença se vai e uma euforia me invade os ossos, me deixa jovem e eu esqueço que vou morrer.

faça com que eu remova todas as solidões inconvenientes dos meus poros, faça com que eu esqueça que foram 30 anos remoendo uma enxaqueca pesada que culminou para que se iniciasse a minha verdadeira doença. os remédios são meros paliativos, já sei que meu corpo está morto. mas antes, quero teimar em te pedir conforto, olhar nos seus olhos ainda escuros, conhecer seus netos, ver em que tom está seu cabelo grisalho, se parou de usar a barba do jeito que eu gostava.

nunca soube seu endereço, para qual lugar você se mudou, se chegou a sair da cidade que fez tudo em nós dar errado. eu sei, você culpa a mim e não à cidade, mas eu sei das minhas circunstâncias, e também sei que sinto falta do toque das suas mãos, do seu cheiro, de observar o caminho dos seus dentes, e foram anos e anos de mãos e peles e garrafas de café em que eu nunca cheguei perto de te encontrar.

eu vou sair daqui, dessa vida, e espero que quando a gente se encontre de novo eu esteja melhor. por você, pelas pedras que nós fomos um na vida do outro. às vezes eu acordo, seu nome me passa pela cabeça, porém eu não lembro mais quem é, demoro para calcular quantos com o mesmo nome já conheci em tantos anos. chego a me sentir curada, mas sei que a doença é outra.

então eu espero que daqui a um tempo, daqui a alguns anos, se esse câncer não me matar, eu possa te encontrar na rua e nós tenhamos tempo e coragem pra conversar – mesmo com o calor insano, aquele sol de redenção que quase já nos fez alucinar, que obriga a caminhada a ser leve – eu quero tempo pra tomar um café com você como nós nunca fizemos porque era tudo impossível e limitado.

quando a gente vai comemorar que viveu até um dia em que poderia dar certo.

seus olhos naquelas fotos antigas me atingem os estômago como os remédios que eu tomo pra relaxar. não espera e quebra esse silêncio cancerígeno, essa música que falta tocar e que vai fazer sua respiração se modificar, reviver a cor dos teus olhos, reamanhecer em nossas mesmas rupturas.

repito o seu nome à noite no tom de voz mais baixo que a sanidade me permite.

e eu me sinto doente de novo.

Written by Ísis Amadeu

12 de novembro de 2013 at 22:13

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