Sobre um tempo que já morreu

(sur un temps qui est mort).

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sobre barbantes e biscoitos.

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eu te pedi perdão nos cinco primeiros minutos de agosto, quando o ar fresco da recente quinta-feira e a leve embriaguez me instigavam a ficar cada vez mais perto, a sentir sua respiração, bagunçar seus cabelos com as mãos um pouco tontas, te levar para um quarto no segundo andar do planeta mais próximo do sol. um sentimento de noite inabalável começou a me rondar devagarinho, girando e girando ao meu redor, enquanto eu o acompanhava com o olhar atento e assustado de um gato. eu precisava capturar esta noite antes que voce resolvesse ir embora. outra vez.

e, marcelo, ter te reencontrado, sem três batidas na porta, sem o toque do interfone, sem uma ligação pra eu desconhecer a sua voz mudada, sem os cabelos enrolados, apenas com seus gestos de falsa surpresa teatral, as pernas finas cruzadas, uma barba calma e um cigarro na ponta dos dedos não me surpreendeu de forma alguma, porque a sua essência, até as palavras que você costuma dizer com mais frequência ou inventar, e que me pego repetindo, já faziam parte de mim de forma que os nossos barbantes astrais acabaram se confundindo e fazendo vários nós frouxos, porém difíceis de se desatar, porque eles dão voltas e voltas. eu ainda coleciono os barbantes, e os guardo junto com as poucas linhas que tiveram origem nos nossos encontros demorados, que atravessavam a noite dando uma volta por todo o nó para depois se perderem em barbantes diferentes, de noites tão azuis quanto a dessa quinta-feira precoce, que não relutava em nascer, fluía como a areia numa ampulheta, despejando-se sobre nós.

voce não veio comigo para a minha fatia magra da cidade, se debruçar na minha janela e fumar seu malboro olhando os carros passando na rua. às vezes olho para a janela e imagino que talvez amanhã voce estará fazendo isso. eu te pedi perdão, mas voce não se preocupou em responder – não era necessário esse tipo de formalidade entre nós. voce já havia me perdoado, talvez há cinco anos, quando nos conhecemos pela sua caneta azul emprestada, entre as estantes da saraiva numa véspera de viagem, e voce me recomendou um autor por quem eu tive paixão instantânea, e vi a nós dois dentro de cada capítulo que poderia ser um dos nossos nós nesse amontoado de barbantes desregrados.

queria bagunçar seus livros e girassóis, abrir espaço nas minhas paredes pras suas pinturas, te deixar colorir as minhas núvens e escrever textos do ginsberg ou do álvaro de campos nas minhas janelas, te chamar pra dançar ao som de kings of convenience. e depois desses 5 anos de ideias, poder dizer: marcelo, voce foi o melhor biscoito do pote.

Written by Ísis Amadeu

4 de agosto de 2013 at 6:22

Publicado em Cartas, Texto

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nós nos afogamos naquele lago acinzentado esperando que a manhã trouxesse alguma surpresa, mas houve apenas abandono.

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Agora, se deixar levar é a melhor das opções, não há porque tentar aprender a nadar com apenas alguns segundos de oxigênio nos pulmões. Não há motivo para ficar se debatendo como se houvesse uma alavanca de fuga no meio da água lodosa. Não há o que salvar.

Marcelo, você sempre volta a me torturar, a me cobrar explicações, mesmo com as minhas tentativas. Não vê como estou cansada de repetir, citar metade dos loucos beats que voce e eu conhecemos de cor, de ficar sem dormir, de apagar seus cigarros, tomar seu café gelado?

Written by Ísis Amadeu

18 de julho de 2013 at 1:08

depois, marcelo, le deluge

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O problema, Marcelo, é que você não saberia o que fazer quando chegasse lá, no oeste ou em qualquer outro lugar para onde você queira ir. A visão da cidade ensolarada à beira do lago poderia te enlouquecer, te desapontar, te deixar sem objetivos, porque tudo o que você quer é chegar lá e deixar a cidade te mostrar o que fazer em seguida. E se isso não acontecer? Você nunca mais seria o mesmo, só sobraria o remorso de não ter descoberto nada além de um lugar que te fez delirar por esses dois anos. Você encontrará uma imagem, mas o Oeste de verdade, o Oeste que você têm procurado por esse tempo todo já está no seu sangue.  É a estrada que você deverá idolatrar, é a ela que você deverá sua paixão, seus medos e pensamentos absurdos.

Nós dois sabemos que o Oeste é um pretexto para fugir. É o mais fundo que você acha que precisa mergulhar. Mas até chegar, você estará satisfeito? E depois, Marcelo? E se tudo for igual ao que tem sido por aqui?

Eu queria ter coragem de te pedir pra ficar.

Written by Ísis Amadeu

15 de julho de 2013 at 2:57

about LA and the dust

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We will never stop, the city is ours. Call me, Marcelo, and I’ll show you how amazing Los Angeles can be.

Essa discrepância, o limite do estado, a sua foto que me diverte, as tardes calmas e bucólicas, a podridão humana alimentando os vermes da cidade, fazendo ela se expandir e diminuir a distância entre nossos impulsos e o perigo real, o que faz com que o asfalto quebre, a ressaca queime, as paranoias comecem. Queime, queime, queime.
É agora. É essa tarde que nós devemos viver porque essa tarde vem antes do próximo final de semana. O caos é não saber aceitar que haverá imprevistos e perdas. Haverá sempre um agora para se pensar no agora, mas nós tentamos nos preparar criando expectativas e planos sem saber que um dia planejamos o que estaríamos fazendo nesse momento, mas acaba sendo impossível sair desse estado de cansaço e divagação, de imaginar como agora poderia ser melhor e não fazer nada, ver gente que deseja e não se move, que teme passar vergonha, que quer sustentar uma imagem na frente de outras pessoas que também só se importam com elas mesmas. Porque iríamos procrastinar a felicidade? Eu respiro, penso, me estrago, mas isso não me faz feliz. Tenho uma necessidade imediatista de conhecer tudo, conversar com todas as pessoas que estão dispostas a viver, borbulhar e arriscar ao invés de planejar, secar e morrer.

Mas eu vou esperar você voltar pra poder pensar em hoje.
Te mostro a cidade. O ópio de viver na cidade.

Written by Ísis Amadeu

3 de novembro de 2011 at 20:23

Publicado em Texto

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