Sobre um tempo que já morreu

(sur un temps qui est mort).

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depois, marcelo, le deluge

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O problema, Marcelo, é que você não saberia o que fazer quando chegasse lá, no oeste ou em qualquer outro lugar para onde você queira ir. A visão da cidade ensolarada à beira do lago poderia te enlouquecer, te desapontar, te deixar sem objetivos, porque tudo o que você quer é chegar lá e deixar a cidade te mostrar o que fazer em seguida. E se isso não acontecer? Você nunca mais seria o mesmo, só sobraria o remorso de não ter descoberto nada além de um lugar que te fez delirar por esses dois anos. Você encontrará uma imagem, mas o Oeste de verdade, o Oeste que você têm procurado por esse tempo todo já está no seu sangue.  É a estrada que você deverá idolatrar, é a ela que você deverá sua paixão, seus medos e pensamentos absurdos.

Nós dois sabemos que o Oeste é um pretexto para fugir. É o mais fundo que você acha que precisa mergulhar. Mas até chegar, você estará satisfeito? E depois, Marcelo? E se tudo for igual ao que tem sido por aqui?

Eu queria ter coragem de te pedir pra ficar.

Written by Ísis Amadeu

15 de julho de 2013 at 2:57

sobre a náusea, o igual e o sono.

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eu tento fugir do trivial e do quotidiano usando sempre essas mesmas palavras, sentindo e escrevendo sobre estar escrevendo mal, escrevendo sempre sobre essa mesma náusea que me tira a vontade de viver. sou um cadáver sendo empurrado para onde estão todos os outros cadáveres. sou uma mesmice, uma expressão inalterada, um sorriso de falsa simpatia e interesse. um cansaço gotejante. escrevo essas coisas ruins – novamente entrando na mesmice de escrever por escrever e esquecer – até que o sono se abra e me arraste através dele, retirando dos meus ossos todas as discordâncias do dia; que todo dia que passa faz com que chegue mais perto essa grande prova de que eu nunca vou ser nem o que eu quis pra mim, nem o que os outros me fizeram acreditar que convinha ser. eles nos obrigam a esquecer quem somos, a não nos procurarmos e defendermos de quem inibe nossa criatividade, nossa fome, nossos sonhos. eles nos obrigam a escolher para que haja mais gente “seleta e vencedora” como eles. um mundo dito normal, sem voltas, sem oscilações, sem paixões. eu não posso querer nada que queime em mim por si só, nenhuma vontade indefesa sem razão aparente pode brotar, nenhum desejo que exista apenas por mim, para a minha satisfação pessoal, mesmo que sempre como um desejo. reprimir! reprimir as ideias e os sonhos! não é mais permitido sonhar com o que não se poderá obter, então faça como eles: seja, respire, ande, compre e se dará bem!  seja como eles e não resista! não sonhe! não almeje algo fora do vulgar! não seja só sozinho, nem só com seus amigos normais e seguidores da ética, da moral e da vida em sociedade. pense como eles, fale, aja! em breve, você os verá como estranhos, verá a zombaria e eles quererão transformá-lo num deles para o seu bem, seu futuro. não resista! não resista! pare de escrever, pare de tentar sentir e entender o que sente, pare de ler, pare de querer se diferenciar! fale o mesmo, compre o mesmo, COPIE. não sinta atração pelo estranho e não explorado, não sinta pelo seu corpo, não tenha prazer que não venha do que lhe ensinaram que o deveria trazer! não se pode mais resistir! o sono! ah, sono que mastiga meus ossos, o sono pesado que desce sobre mim e sobre todos esses que nunca viveram uma madrugada – pois essas não são coisa permitida na vida de gente normal – todos esses que apodrecem na madrugada, que nunca tiveram paixão por um café. deus, jogue-me nessa mesma vala em que eles se encontram e deixe-me dormir.