Sobre um tempo que já morreu

(sur un temps qui est mort).

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#66 here, i’m allowed

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gosto de ver o azul escuro do céu borrando lentamente até clarear depois da chuva, no começo do domingo sólido de tão gelado. nessas noites, quando eu não sinto falta de nada, quando mais nada me preocupa, quando a confiança e a euforia e o bem-estar me tomam, quando uns minutos ao lado de alguém criando discussões inacabáveis, trocando  palavras gritadas ou um extenso silêncio a dois indicam tudo o que está suspenso e o que há de vir, fazem valer os 400km de ida e volta que rodo todos os meses, as noites anteriores sem dormir, a garganta estourada nos dias que seguem, os finais de semana apodrecendo no quarto. além disso, quando eu fico o tempo que durarem as dores no corpo sentido os flashs inacreditáveis aparecendo como tempestades mentais embriagadas, percebo que nenhuma cidade será maior do que a minha, com todos os seus elementos que culminam para que cada noite lá seja parte de uma história infinita, de um ciclo de insurgência irremediável em que as consequências acabam escapando do plano da licitude.

sob esse céu azul claro já manchado de branco, eu vejo o quanto amo essa cidade, mais do que as quatro estrelas brancas que decretaram a minha liberdade. é o único lugar onde eu encontro loucura e aconchego, ao invés de náusea e solidão. é nessas noites em que eu me sinto viva.

mas o resto de mim tem estado vazio, insistindo em me provocar com a lembrança da existência do mundo real que eu nego, clareando como o céu quando amanhece após uma noite regada de aventuras, sendo a luz no quarto que atrapalha o sono de manhã quando se acaba de chegar em casa, sendo o telefone que toca interrompendo um momento bom. parece que a intensidade de viver se apaga. parece que o trivial recomeça, e eu não sei mais o que fazer e a que atribuir sentido. eu chego a temer o encontro com essa vida, mas quero usar essa parte danificada que me resta, a parte que carrega o sonho corrompido e os momentos de indiferença para balancear meu lado desenfreado, para ter algo a defender, para ter fortes perdas na balança. o que não me mata, me fortalece. tudo me servirá como virtude. tudo me completará. tudo me salvará da desilusão imensa com o que me tornei. tudo me guiará ao meu momento próprio e único de glória.